Marx e Zola: a prosa realista e a Comuna de Paris


Salete de Almeida Cara
Dept. Letras Clássicas e Vernáculas - FFLCH - USP

Colocar Marx e Zola lado a lado numa reflexão sobre a prosa realista, implica considerar o II Império de Napoleão III e a III República Francesa como etapas de um mesmo processo capitalista global e, no processo, a aliança entre interesses do Estado moderno autoritário e da especulação financeira no contexto das particularidades francesas. Tanto Marx quanto Zola - o primeiro no calor dos acontecimentos e o segundo durante a Terceira República – deram a ver problemas exemplarmente acumulados no período entre os anos de 1850 e a Comuna de Paris de 1871, tempo da passagem do jogo entre as nações para o jogo do capital internacionalizado, decisivo nos anos de 1890.

A imaginação situada necessária tanto ao ensaísta quanto ao ficcionista, que não se furtam a apreender a negatividade da sua matéria, no caso dos ensaios de Marx dependeu do processo dialético constitutivo do método materialista, apanhando o próprio ensaio como material do enredo a ser contado. No caso dos romances de Zola, resultou em escolhas formais capazes de contar, de olho nos desastres sociais, que o progresso incluía e excluía os mais pobres, limitava ou mesmo impedia o âmbito de sua vida e de suas ações - a prática revolucionária inclusive -, enriquecia e também empobrecia os indivíduos, conferia ao trabalho um estatuto não necessariamente emancipatório, entre outras coisas. No entanto, a Comuna de Paris, ao escancarar de modo radical a mentira da ordem burguesa, acabou trazendo um impasse histórico-ficcional ao escritor Émile Zola, nos anos de 1890. ...