Alguns pontos sobre o lugar do cinema de ensaio de Chris Marker na problemática do cinema militante


Nicolau Bruno
PPG em Comunicação - ECA - USP

A idéia de 'cinema militante' é um conceito prematuro, cunhado para designar como um gênero o conjunto amplo e informe de filmes que tratam diretamente de lutas sociais e políticas ou que contornam o espectro de um cinema de tendência anti-capitalista. Um leque plural e mal definido que transita entre todos os outros gêneros e abarca tanto a ficção vagamente ligada com o tema social e político, quanto o material de agitação e propaganda 'subversivo' e organicamente ligado a alguma mobilização de classe concreta. Enquanto a adjetivação 'militante' embaralha a caracterização política, pois se ela designa a tomada de tendência, nada mais militante do capitalismo que o cinema industrial, que Hollywood. Esse impasse epistemológico, não é uma mera dificuldade arbitrária, mas ao contrário, é sintoma da dificuldade histórica de se qualificar um programa estético do cinema que adquira forma na prática política anti-capitalista e que não se consubstancie exclusivamente pela tendência mas busque coerência teórica e prática com os preceitos da utopia que se delineia nas várias experiências da arte política que se insurge contra a irracionalidade objetiva da lógica do capital.

O cinema mais que as outras artes, por ser uma expressão coletiva, pela intermediação exclusiva da câmera está crivado por paradigmas ideológicos na busca por uma arte emancipatória. Isso fica ainda mais evidente no caso do vídeo militante contemporâneo, tem de se deparar com processos de alienação que vem da própria concepção digital da imagem, que acaba não possuindo o processo direto de impressão da luz gerando um grau além da alienação do autor com o processo de representação fotográfica, das câmeras audiovisuais contemporâneas. Para não falar da hegemonia do imaginário televisivo que se sedimenta na linguagem videográfica.