O leão de sete cabeças – atitude brechtiana na luta anti-imperialista
Maria Gutierrez
PPG em Teoria Literária e Literatura
Comparada - FFLCH - USP
PPG em Teoria Literária e Literatura
Comparada - FFLCH - USP
Falaremos da incorporação de elementos da estética brechtiana na obra de Glauber a partir de breve análise de dois de seus filmes, O dragão da maldade contra o santo guerreiro e O leão de sete cabeças. O primeiro deles busca a criação do épico nacional a partir da tradição popular nordestina e da cultura de massa, especialmente o western. O filme opera uma inversão da colagem tropicalista ( conforme Ismail Xavier em Alegorias do subdesenvolvimento ) e leva adiante várias propostas de Brecht: a incorporação do caráter mercadoria da obra de arte, o aspecto culinário, e de sua crítica; a mistura de gêneros e tons, solene e kitsch, como na Ópera dos três vinténs. O didatismo, a multiplicidade de vozes narrativas, a organização teatral do espaço, a fala poética do cordel, os enquadramentos em tableaux, a contraposição entre longos planos seqüência e momentos de montagem rápida minam a possibilidade de ver o cinema como janela aberta para o mundo; rompem com os códigos de linguagem que buscam aproximar o cinema do drama, para realçar-lhe o caráter narrativo, estabelecendo uma obra épica-didática. No caso de O leão de sete cabeças, o neo-colonialismo é desmontado na demonstração da sua bestialidade, em suas várias facetas e instrumentos de dominação. Tanto aos colonialistas como aos colonizados cabem escolhas: entre formas de repressão às lutas de liberação, de um lado, e entre independência negociada e guerrilha, do outro. Baseado nas teses políticas de Guevara e Fanon e no apocalipse de João, o filme coloca assim o público diante de um julgamento, forma reincidente em Brecht.