Uma ponte para a especulação
[ou a arte da renda nas margens do Rio Pinheiros]



Mariana Fix

FAcamp; PPG em Desenvolvimento Econômico,
Instituto de Economia, UNICAMP


A gigantesca ponte recentemente construída na Marginal Pinheiros foi saudada como novo cartão postal paulistano. A sua imagem espetacularizada, inspirada em projetos de conhecidos arquitetos europeus, funcionaria, ao mesmo tempo, como um atrativo para investimentos, uma espécie de “chamariz” para o mercado imobiliário, nos termos utilizados pela própria Prefeitura.

A ponte estaiada impõe sobre a realidade, a realidade da sua imagem. E encobre o imenso desejo de eliminar da paisagem urbana os que ali viviam, “marcando-os ao mesmo tempo com os signos indeléveis da diferença e da indiferença”. ["São Paulo não é mais uma cidade", de Laymert Garcia dos Santos (publicado no livro Cidade e cultura, organizado pela Vera Pallamin, 2002, Estação Liberdade)]. O suposto triunfo que expressa é temporariamente desmentido quando as contradições, aparentemente suprimidas nas superfícies reluzentes da “nova cidade”, ganham visibilidade. [Essa a tentativa de Wodisko, que projetou sobre as esculturas do novo centro empresarial no sul da ilha de Manhattan imagens dos moradores que foram expulsos da região. Cf. Deutsche, R. “Homeless projection and the site of urban “revitalization” (Eviction, The MIT Press, 1996.)] As alças de acesso ergueram-se onde antes existia uma favela. Os recursos empregados estavam inicialmente previstos para a construção de moradia social. No entanto, mais de 50 mil já foram expulsos das favelas da região e tiveram que se virar por conta própria. Uma disputa por fundos públicos encoberta pelo uso de mecanismos jurídicos supostamente avançados, como as operações urbanas e os Cepacs.

A ponte é, assim, síntese da realidade urbana que se aprofunda e se consolida: uma “cidade de muros” cindida entre a nova cidade para poucos – que concentra investimentos públicos e privados, cresce em metros quadrados construídos, mas perde população – e uma imensa periferia, com índices explosivos de crescimento populacional. A imagem de uma cidade de contrastes, no entanto, comum nas representações de São Paulo, não é exata. Perdem-se de vista as conexões entre essas duas realidades, para além do usual registro da existência de dois pólos.

Logo ao lado, três torres do Centro Empresarial Nações Unidas interligam-se, no subterrâneo, com a unidade brasileira do WTC, formando um único complexo, uma espécie de máquina anti-urbana. A excepcionalidade e a particularidade são cruciais para que edifícios desse tipo permitam a seus proprietários se apropriar de um fluxo de rendimentos maior, a chamada renda monopolista. Ao mesmo tempo, o desenho das fachadas, as características técnicas, os materiais, a tipologia e layout seguem, em certa medida, parâmetros pré-determinados. São características exigidas pelas empresas locatárias e, conseqüentemente, pelos investidores, particularmente aqueles que tratam o empreendimento como um ativo financeiro, exigindo acima de tudo rentabilidade elevada e liquidez.

Nossa hipótese é que esses empreendimentos – que criam marcos permanentes na nova paisagem de poder e dinheiro que se constitui em São Paulo – são elementos-chave para decifrar a mudança estrutural pela qual passamos atualmente.