Jean-François Millet:
pintura e representação do trabalho


Marcos Fabris
PPG em Estudos Linguisticos e Literários em Inglês - FFLCH - USP
Centro Universitário SENAC

A apresentação tem por fim iniciar uma reflexão sobre a obra de Millet para, desta maneira, responder a questão: Como o pintor do século XIX, inserido na tradição do Realismo francês, dialoga com a produção artística contemporânea à sua e como, se é que de fato o faz, colabora para a expansão dos limites da pintura tradicional, oscilando entre uma produção mais progressista e outra, de caráter mais comercial?

Tanto quanto lhe permitiam as condições materiais, o trabalhador camponês ocupa o centro da representação na obra do pintor. Entretanto, a experiência social deste grupo não se resume apenas àquela do camponês ligado à terra pela tradição e pelos valores morais ou religiosos, pois após 1848 o próprio campo passava por significativas transformações econômicas, assim como a banlieue e a cidade. Além do mais, fazia parte do imaginário urbano da época a idéia de campo como o espaço antagônico à metrópole, reduto da ignorância de camponeses que personificavam o protótipo da estupidez. A contribuição que Millet parece ter dado à pintura, em sua produção menos convencional iniciada em Paris e portanto anterior a sua partida para Barbizon (1849), dá notícia dos processos de modernização no campo e seus aspectos inter-constitutivos com aqueles que tinham lugar na cidade e na banlieue. Noutros termos, pretendo argumentar que o pintor concebe o trabalho e o trabalhador rural como o duplo do urbano, substituindo a representação poética da vida rural por uma reflexão da experiência de ordem materialista.