O espectador como material cinematográfico:
um debate materialista


Peterson Pessoa
PPG em Artes Visuais - ECA - USP

Primeira realização cinematográfica de Sergei M. Eisenstein, o filme A Greve, produzido entre os meses de abril e novembro do ano de 1924, e lançado em abril de 1925, foi produto da elaboração de um novo regime de trabalho cinematográfico e artístico, que buscava afetar e direcionar a atenção de seu público por meio de suas emoções e suas reações físicas: a montagem de atrações.

A proposta da montagem de atrações foi desenvolvida inicialmente para o espetáculo teatral. Pautava-se pelo caráter físico da encenação (corporalidade dos atores) e da descontinuidade das atrações (qualquer elemento agressivo do teatro capaz de despertar a atenção do espectador). Tratava-se de um teatro de forte teor agitacional e pedagógico; procurava ter um controle dos efeitos, a fim de alcançar eficiência na tarefa de elevação da consciência das massas.

Ainda que o termo “atração” seja mais conhecido como componente da prática cinematográfica de Eisenstein, vale dizer, como uma fase preliminar de seu trabalho (que o levaria posteriormente à elaboração da proposta do cinema intelectual), faz-se necessário lembrar que se origina de um trabalho conjunto com o dramaturgo Sergei Tret’iakov, entre os anos de 1923 e 1924. Os experimentos teatrais de Eisenstein, baseados na recepção psicofisiológica do espectador, foram orientados por Tret’iakov para o desenvolvimento de uma prática artística comprometida com a noção construtivista de encomenda social. Nesse sentido, o caráter experimental das encenações foi trabalhado de maneira que pudesse se adaptar às peculiaridades da classe social (proletariado) para qual estava endereçada, tratando o espectador como uma entidade concreta, a ser afetada e moldada.

Em A montagem de atrações no cinema, artigo redigido durante a finalização das filmagens de A Greve (e raramente abordado pela tradição crítica que se debruçou sobre o trabalho do cineasta), Eisenstein disserta sobre as possibilidades de aplicação do método teatral da montagem de atrações no cinema, faz uma revisão do conceito de atração, esforçando-se por diferenciar seu procedimento de construção fílmica do trabalho empreendido por Dziga Vertov, caracterizado pela proposta estética do Cine-Olho.

O presente trabalho analisará o conceito de montagem de atrações com base neste texto e no filme A greve, e determinará as diferenças entre o procedimento de Eisenstein e o de Vertov, tomando por base a forma como ambos trabalharam a questão da recepção no cinema.