Fragmentos da Vida:
a cidade como aspiração
e como produção ideológica.
Rubens Machado Jr.
CRT - ECA - USP
A cidade de São Paulo, que nos anos 20 cresce afirmando-se economicamente com o café e a indústria, parece forjar no cinema uma imagem nítida de metrópole que vive ordenada para o trabalho. Dos filmes de ficção que chegam até nós o melhor exemplo é Fragmentos da vida (1929), de José Medina, adaptação do conto novaiorquino “The cop and the anthem”, de O’Henry. Nele, dois vagabundos perambulam por uma cidade ordeira, um deles tentando ser preso para passar o inverno com comida e roupa lavada. O tratamento plástico e espacial dado à cena ou à paisagem física e humana exprime uma cidade ordenada que corresponde à ideologia dominante, e às verdadeiras aspirações partilhadas por diversas classes e setores da sociedade. Isto implica o surgimento do mito da cidade do trabalho e do perfil moderno de sua personalidade urbana que, no cinema só começa a ser criticado de fato com Moral em concordata (1959) e São Paulo Sociedade Anônima. (1965), ganhando visões singulares nos filmes urbanos de Ozualdo Candeias.