Cultura e Política 1969-1974:
Schwarz e Oiticica.


Gustavo Motta
PPG Artes Visuais - ECA - USP

CULTURA DO DESMANCHE
17/09/2010
Sala 100 - FFLCH (Conjunto C.Sociais-Filosofia)


No texto Cultura e Política 1964-1969 Alguns Esquemas (Les Temps Modernes, 1971), Roberto Schwarz faz uma avaliação crítica do período que viu florescer – tardia e surpreendentemente, em meio à ditadura militar – uma cultura de esquerda politicamente interessada e multidisciplinar (o crítico faz menção à literatura, à música popular, ao teatro, à cultura editorial universitária, etc.). Segundo o crítico, este amadurecimento, ―fruto de dois decênios de democratização, ligado à primavera nacional-desenvolvimentista do pré-64, se deu no momento em que as condições para sua existência social mais ampla já não existiam. No calor da hora (1971), R. Schwarz realiza um panorama crítico sobre as ambigüidades do processo cultural em movimento em sua relação com o processo social impedido – em parte, diante do diagnóstico de que em 1969 (e com o AI-5) este ciclo esquerdizante da cultura brasileira sofria uma inflexão.

Dois anos mais tarde, no texto Brasil Diarréia (1973), o artista plástico Hélio Oiticica aborda a cultura brasileira (com foco nas artes plásticas, praticamente ausentes do texto de Schwarz) no pós-AI5, aludindo à mesma problemática da ambigüidade dos processos artísticos – formulando dialeticamente a situação particular brasileira (periférica), no contexto mais amplo, ― universal – desigual e combinado. A leitura de Oiticica investe em duas hipóteses mutuamente imbricadas: 1) de um lado, de maneira otimista, formula uma leitura crítica da ambivalência congênita à cultura, com vistas à conceitualização do que ele chama o experimental – que consistiria num movimento de supressão da arte experimental, no qual o campo cultural seria um laboratório para a experiência social mais ampla (que configuraria o experimental com uma concepção libertária e crítica da sociedade); 2) de outro lado, H.O. aponta, em chave pessimista, as conseqüências já visíveis da não realização social ampla do experimental, nas imagens conceituais da conservação-diluição e da diarréia, duplos da convi-conivência (doença típica brasileira): a falta de caráter global da sociedade. Aludindo ao vocabulário de época referente à teoria da formação, Oiticica chega a formular a hipótese de uma formação diarréica brasileira.

Seguindo indicações do texto De Opinião 65 à XVIII Bienal (1986) de Otília Arantes, a conferência procurará contextualizar a origem da consciência crítica apresentada de modo análogo nos textos de Schwarz e Oiticica na cultura esquerdizante dos anos 1964-69 descrita pelo primeiro. Também procurará contextualizar a dinâmica político-cultural (diluída) na qual ambos os textos se inserem no período 1969-74, procurando assinalar a inflexão sofrida pelo ideário da formação nacional no período.

Estancamento do ciclo cultural esquerdizante em 1969 (R.Schwarz) e formação diarréica (H.Oiticica): prefigurações do desmanche global que se seguirá?