Mito, Acaso e Inferno de Wall Street
num quase-filme de Hélio Oiticica


Rubens Machado Jr.
Dept. de Cinema, Rádio e Televisão - ECA - USP

CULTURA DO DESMANCHE

É preciso analisar, isto é, descrever, decompor, e interpretar Agrippina é Roma-Manhattan, único filme de Hélio Oiticica. Mas que elenco de comentários seria imprescindível para o seu debate contemporâneo? Filme considerado inconcluso, feito em Nova York em1972, tem sido mostrado desde então em inúmeras circunstâncias. Ou, pelo menos desde 1992, ano da primeira retrospectiva internacional do artista, na Galeria Nacional do Jeu de Paume, em Paris.

Agrippina pode ser também pensado como um filme Super-8 ―concluído‖, contemplada a natureza do suporte que esta bitola adquiriu entre artistas e cineastas experimentais e/ou amadores, mas também em virtude de alguns desígnios pertinentes à trajetória do artista entre os anos 60 e 70, bem como naqueles anos de trabalho vividos nos Estados Unidos. Este filme de Oiticica reúne características que podem mesmo ser descritas como um prolongamento das experiências não só do Cinema Marginal como do próprio Cinema Novo. Curiosamente, ele também antecipa características outras, distintas daquele cinema, e que seriam desenvolvidas especificamente pela produção experimental superoitista brasileira durante os anos 70 e início dos 80. O caráter contemporâneo que desejamos abordar em nossa análise desse filme coloca em termos distintos a distinção entre formação e desmanche que se desenhavam em alguns dos nossos seminários anteriores, ou no mínimo indicaria limites gnosiológicos implicados naqueles parâmetros.