Pampulha e Brasília
ou as longas raízes do formalismo no Brasil
Luiz Renato Martins
Dept. de Artes Visuais - ECA - USP
Dept. de Artes Visuais - ECA - USP
PRECARIZAÇÃO, APARTHEID E DESMANCHE
01/10/2010
Sala 100 - FFLCH (Conjunto C.Sociais-Filosofia)
Em Oscar Niemeyer: forma arquitetônica e cidade no Brasil moderno (tese de doutoramento, DF-FFLCH – USP, 2002), Luiz Recamán traz à luz o caráter fundamentalmente anti-urbano do processo formativo do sistema da arquitetura moderna brasileira.
Apoiada nesta interpretação (que parte da análise dos projetos iniciais, do Pavilhão do Brasil na Feira de Nova York de 1940 - feito a quatro mãos, por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer -, e do projeto do conjunto da Pampulha, por Niemeyer, logo a seguir), a palestra procurará indicar que o trabalho de Recamán vem comprovar com força demonstrativa, e rara agudeza analítica e perspicácia reflexiva na leitura crítica do processo da arquitetura moderna brasileira, alguns diagnósticos sobre a formação social do país elaborados em Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda, e na obra subseqüente, de Caio Prado Jr.: Formação do Brasil Contemporâneo (1942)
De fato, Raízes do Brasil assinalara que o "talento", ou a destreza no manejo das formas, “parecia brotar (...) de uma qualidade inata, como seria a fidalguia”, segundo ressaltou Antonio Candido em seu prefácio de 1967 a uma reedição do livro.
Mais que aproximação passageira, a comparação do prefaciador, com a precisão de uma forma sintética para ficar na memória coletiva, chama a atenção para um achado precursor e crucial de Raízes do Brasil: a destreza e o talento no manejo das formas - ou aquilo que a esta altura, com visão retrospectiva e acumulação crítica, já se pode denominar de a propensão brasileira ao formalismo -, têm o seu atavismo constituído na longa preponderância do latifúndio escravista na Colônia, bem como no país dos herdeiros, baseado ainda em tal forma ou na sua atualização, na forma do trabalho precário.
Da aversão, decorrente de tal matriz, ao trabalho material e das atividades intelectuais a este ligadas, e daí, ainda, ao vigor da nossa “forma livre”, resultante da combinação entre a “liberdade total” do arquiteto e o primado do desígnio do dono da terra, tem-se só dois passos e nestes a predominância de uma nota só.
Vista desde a perspectiva crítica que a palestra irá propor, com base nos diagnósticos que Raízes do Brasil constrói e a tese de Recamán explicita e verifica na análise arquitetônica, a chamada “Cidade Nova” delineia-se segundo traços da unidade senhorial rural, de acordo com a imaginária anti-urbana de uma utopia colonial.