A metrópole caprichada: Cavação e modernidade em São Paulo, a sinfonia da metrópole


Rubens Machado Jr.
Departamento de Cinema, Rádio e TV - ECA - USP

Se considerado enquanto obra prima do “documentarismo” paulistano, levando-se mesmo em conta o excepcional de sua concepção e fatura, São Paulo, a sinfonia da metrópole faz jus e se enquadra perfeitamente no âmbito dos naturais, denominação dos filmes documentários ou de atualidades que se faziam em São Paulo com regularidade crescente desde as vistas locais da virada do século. O filme de 1929 dos recém-migrados húngaros Adalberto Kemeny e Rodolfo Rex Lustig é inspirado na conhecida sinfonia berlinense de Walther Ruttmann. O desvio paulistano da fórmula alemã fica patente no entusiasmo localista que exige o estilo institucional aprimorado na prática de cavação dos cinejornais, com uma fotografia que, tanto do ponto de vista artesanal como artístico, oscila entre composições mais próximas de um espírito art-nouveau e de um olhar classicizante. Isto acaba convertendo a Nova Objetividade original num capriccio a um só tempo moderno e parnasiano, o que faz jus ao espírito da cidade e de sua arquitetura.

Nesta linha, mas em estilo diferente e olhar mais próximo do espírito modernista local, Benedito Junqueira Duarte filmou São Paulo dos anos 30 aos 50, a partir de seu vínculo com o Departamento Municipal de Cultura. O paralelo entre os dois registros da metrópole paulistana mostra duas maneiras opostas de aproximação com a modernidade. No primeiro caso, a euforia local pela modernização se conjuga com certa pedagogia liberal na demonstração retórica de uma civilidade à altura dos grandes centros. No segundo, o gosto pela estilização abstracionista da paisagem urbana ganha reverberações ora expressionistas (é dele famosa foto de Mário de Andrade com o rosto iluminado de baixo), ora cubistas (no sentido de remeter ao problema da angulação de ponto de vista, no trabalho de compor a representação). Nos registros de Duarte, um olhar banhado na mais sólida cultura local e apoio institucional busca uma expressão cosmopolita da vida urbana. Na Sinfonia, dá-se igualmente um tangenciamento efetivo da modernidade, só que em sentido oposto: Um olhar cosmopolita procura o vigor localista, vislumbrando o que poderia cogitar de mais institucional na cidade. A comparação da sinfonia paulistana com as conhecidas sinfonias urbanas do período entre guerras é necessária para o seu dimensionamento artístico fora do âmbito das vanguardas, mas dentro de um quadro de práticas criativas locais nada alheias a tradições artísticas em pleno vigor.

Num cotejamento com a vanguarda o filme paulistano perde de início a radicalidade moderna do tratamento Neue Sachlichkeit de Ruttmann, cuja constelação implica as complexas experiências de que fazem parte as sinfonias urbanas do entre-guerras: a Paris simultaneísta e contraditória do brasileiro Alberto Cavalcanti em Somente as horas (1926); o dinamismo construtivista das cidades soviéticas de Dziga Vertov no auto-reflexivo O homem da câmera (1929) ou os paradoxos poéticos da vida na sofisticada cidade balneária de Jean Vigo em A propósito de Nice (1930). A sinfonia paulistana, sem qualquer eco desesperado, libertário ou trágico, se apropria da técnica ruttmanniana para movimentar a urbe de modo pouco controverso, sugerindo pujança e dinamismo de permeio a seqüências mais convencionais, próximas do cinejornal que fala dos orgulhos da cidade. Mas Kemeny e Lustig fazem muito bem isto tudo, passando-nos — através de registros fotográficos de enquadre vigoroso e algo solene, cheios de trucagens e fusões — um estado de espírito vibrante, contagiado pelo frêmito do progresso. O filme combina a euforia do paulistano pela modernização da cidade com certa pedagogia austera e liberal empenhada na exposição de uma civilidade exemplar, à altura dos grandes centros desenvolvidos. O resultado alcançado reverbera uma espacialidade esmerada que prefigura o ritmo da geometria estilizada e pseudo moderna das edificações art déco ‑ que nas duas décadas seguintes alterariam a plástica da paisagem paulistana.


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Resumo antigo:

Fragmentos da vida: a cidade como aspiração e como produção ideológica


Rubens Machado Jr.
Departamento de Cinema, Rádio e TV - ECA - USP

A cidade de São Paulo, que nos anos 20 cresce afirmando-se economicamente com o café e a indústria, parece forjar no cinema uma imagem nítida de metrópole que vive ordenada para o trabalho. Dos filmes de ficção que chegam até nós o melhor exemplo é Fragmentos da vida (1929), de José Medina. Nele, dois vagabundos perambulam por uma cidade ordeira, um deles tentando ser preso para passar o inverno com comida e roupa lavada. O tratamento plástico e espacial dado à cena ou à paisagem física e humana exprime uma cidade ordenada que corresponde à ideologia dominante, e às verdadeiras aspirações partilhadas por diversas classes e setores da sociedade. Isto explica o surgimento do mito da cidade do trabalho e do perfil moderno de sua personalidade urbana que, no cinema só começa a ser criticado de fato com Moral em concordata (1959) e São Paulo Sociedade Anônima. (1965).