Descontinuidade, linguagem, conflito.
De Le Dejeneur sur l'Herbe às pontes de Petrogrado.
Luiz Renato Martins
Dept. Artes Plásticas - ECA - USP
Dept. Artes Plásticas - ECA - USP
Se admitirmos a noção de montagem como articulação entre elementos descontínuos, poderemos considerar que algo de uma montagem já se apresenta em Le Dejeneur sur l'Herbe (1863), de Manet. Neste sentido, a apresentação, aqui proposta, procurará demonstrar que sinais de descontinuidade, materialidade, tatilidade e de uma certa carnalidade (que antecipa elementos do campo freudiano), promovem, na obra de Manet, a reestruturação do campo pictórico e antecipam a reordenação deste em torno da valorização do ato de pintar. Reordenação, que responderá à reorganização sistêmica do trabalho como ação abstrata e anônima, regida pela segmentação, nos moldes do capitalismo industrial.
Inscrito neste processo, o efeito de disrupção da colagem cubista, desenvolvida por Braque e Picasso a partir de 1911, surge circunscrito historicamente e deixa ver seus laços orgânicos com o mundo da flânerie e da boêmia; mundo que seria logo extinto pela ordem administrada e militar da indústria pesada e da lógica bélica. Em tais circunstâncias, ao cabo de um processo fecundo mas também efêmero, a colagem viria a ser "domesticada" pela pintura e assimilada como virtuosismo integrado ao sistema de autores.
Mais além da colagem, situa-se a "teoria da montagem", base do "cinema intelectual", que é próprio da cultura da Revolução. Afirmar o conflito ou a luta como princípio permanente é a base da "teoria da montagem" como operação articuladora de oposições. Teoria que, em Outubro (1927), o filme de Eisenstein, vem inscrita na metáfora crucial da narrativa: repressão, corte de contatos, ponte desmontada - ponte remontada, montagem, poder operário, Revolução em andamento. A visão de Trotsky acerca do processo histórico também privilegia a potência de confronto do "fragmento" com a "massa".
Inscrito neste processo, o efeito de disrupção da colagem cubista, desenvolvida por Braque e Picasso a partir de 1911, surge circunscrito historicamente e deixa ver seus laços orgânicos com o mundo da flânerie e da boêmia; mundo que seria logo extinto pela ordem administrada e militar da indústria pesada e da lógica bélica. Em tais circunstâncias, ao cabo de um processo fecundo mas também efêmero, a colagem viria a ser "domesticada" pela pintura e assimilada como virtuosismo integrado ao sistema de autores.
Mais além da colagem, situa-se a "teoria da montagem", base do "cinema intelectual", que é próprio da cultura da Revolução. Afirmar o conflito ou a luta como princípio permanente é a base da "teoria da montagem" como operação articuladora de oposições. Teoria que, em Outubro (1927), o filme de Eisenstein, vem inscrita na metáfora crucial da narrativa: repressão, corte de contatos, ponte desmontada - ponte remontada, montagem, poder operário, Revolução em andamento. A visão de Trotsky acerca do processo histórico também privilegia a potência de confronto do "fragmento" com a "massa".