Dos estudos da formação à greve como formação


Luiz Renato Martins
Dept. Artes Plásticas - ECA - USP

O trabalho foi originalmente concebido para apresentar a um público estrangeiro, da Universidade Autônoma de Madrid, o debate brasileiro sobre a "formação" e o desmanche, como reflexão crítica sobre a dialética cultural entre centro e periferia.

Neste sentido, revê, de modo resumido, o histórico dessa discussão, aproximando-a, comparativamente, de dois outros processos discursivos: 1. aquele que pregava a constituição de um complexo industrial autônomo nos países periféricos, com o objetivo de promover a "substituição das importações", como objetivo prioritário para a autonomia nacional; 2. aquele que pregava o ideal crítico-reflexivo da emancipação, sob a divisa da Ilustração ou do Iluminismo, segundo categorias correntes nos países centrais.

Assim posto, o objetivo histórico da formação tardia, conjugado às metas da industrialização tardia e da "emancipação ilustrada", delineou-se como "um radicalismo de classe média", no lúcido dizer de Antonio Candido, e assim postergou, com raras e intermitentes exceções, o enfrentamento crítico de questões cruciais na formação histórica do capitalismo periférico, ligadas ao ponto de vista do trabalho e à permanência estrutural do racismo e do apartheid inerentes ao holocausto de africanos escravizados e pauperizados.

Assim, os traços do apartheid consubstancial à formação histórica da sociedade brasileira, e ainda vivos na atualidade, expressam-se, por exemplo, nos moldes como são segregadas e destituídas de valor político, dentro da Universidade de São Paulo, as manifestações dos seus trabalhadores com funções não-docentes - majoritariamente não-brancos -, cujo direito à universalidade do voto, formalmente reconhecido na constituição do país, é amplamente desconsiderado no âmbito da USP.

À esta complexa questão histórica se agrega hoje a questão contemporânea do "desmanche", que traz como um sintoma marcante o abandono do juízo histórico reflexivo, fator constitutivo, ao lado de outros fatores, o ideal da "formação".

No quadro desta nova problemática histórica e da mutação congênere das universidades - transformadas de instituições reprodutoras do ideário universalista da Ilustração em estruturas segmentadas e industrializadas para o adestramento sumário e precário em escala de massa -, deu-se a fundação do Centro DESFORMAS em 2008. O Centro agrupa um coletivo interdisciplinar de pesquisadores, gerado do movimento político de ocupação do edifício central da reitoria da USP, que permaneceu por cinqüenta dias, em maio-junho de 2007, sob a ocupação de estudantes e funcionários.

Tal gênese faz com que no cerne dos debates e reflexões em curso nas atividades do Centro DESFORMAS apresentem-se reiteradamente duas preocupações: 1. com a reflexão histórica, sintética e totalizadora, de acordo com a tradição da "teoria da formação"; 2. com a combinação dos processos de pesquisa e reflexão com as lutas políticas concretas, de acordo com uma nova conjuntura histórico-política na qual o ideário de formação da Nação deu lugar à urgência de questões concretas próprias à luta de classes.