Machado de Assis e a Abolição
Pedro Coelho Fragelli
PPG em em Literatura Brasileira – FFLCH – USP
PPG em em Literatura Brasileira – FFLCH – USP
A presença aparentemente apagada da Abolição na obra machadiana parece corroborar um dos equívocos mais renitentes da história da crítica literária brasileira: o mito do Machado de Assis alheio à realidade que o cercava, do escritor pouco brasileiro. Mais particularmente, parece confirmar o suposto desinteresse de Machado pelo movimento abolicionista e pelo fim da escravidão, de que ele foi violentamente acusado por uma parcela importante da intelectualidade engajada de seu tempo.
Sabemos, todavia, que a Abolição não teve o significado histórico a ela atribuído pela retórica abolicionista. Uma vez removida a “mancha de atraso” – a escravidão – que desmoralizava o país diante do “mundo civilizado”, os ex-escravos foram abandonados à própria sorte. Em trágica inversão de sentido, a extinção do escravismo não promoveu a incorporação dos libertos à sociedade de classes, mas representou, justamente, o momento supremo de sua derrelicção. Sem risco de exagero, portanto, pode-se afirmar que os beneficiários da Abolição foram os brancos: por meio da extinção do escravismo, as elites cafeeiras livraram-se não apenas da vergonha ideológica, mas dos custos do arcaísmo, que travavam a expansão da monocultura de exportação cafeeira.
Na obra de Machado de Assis, justamente, a Abolição é representada como farsa das elites, farsa em que se combinam interesses econômicos e políticos, indiferença social e renovação do poder patriarcal. Serão estudadas algumas passagens decisivas da obra machadiana, nas quais o escritor aborda a transição para o regime de trabalho livre no Brasil. O Memorial de Aires, último romance de Machado, receberá atenção especial, tendo em vista que sua ação se passa nos anos 1888-89. Veremos que a presença discreta, para o gosto abolicionista, da Abolição no livro faz parte da estratégia machadiana de adotar o ponto de vista da classe dominante imperial, de forma que ele possa ser melhor criticado – no caso do Memorial, de forma a denunciar o desinteresse total das elites brasileiras pelo destino dos libertos.
O seminário tem como objetivo contribuir para o processo de revisão do mito do absenteísmo machadiano, particularmente no que diz respeito ao interesse do escritor pela Abolição e a sua visão do processo de extinção do escravismo no Brasil. Com isso, pretende-se destacar a atualidade e o potencial crítico da reflexão machadiana sobre o 13 de Maio e a integração dos ex-escravos à sociedade de classes, tendo em vista a persistência da situação miserável e marginal dos negros no Brasil.
Sabemos, todavia, que a Abolição não teve o significado histórico a ela atribuído pela retórica abolicionista. Uma vez removida a “mancha de atraso” – a escravidão – que desmoralizava o país diante do “mundo civilizado”, os ex-escravos foram abandonados à própria sorte. Em trágica inversão de sentido, a extinção do escravismo não promoveu a incorporação dos libertos à sociedade de classes, mas representou, justamente, o momento supremo de sua derrelicção. Sem risco de exagero, portanto, pode-se afirmar que os beneficiários da Abolição foram os brancos: por meio da extinção do escravismo, as elites cafeeiras livraram-se não apenas da vergonha ideológica, mas dos custos do arcaísmo, que travavam a expansão da monocultura de exportação cafeeira.
Na obra de Machado de Assis, justamente, a Abolição é representada como farsa das elites, farsa em que se combinam interesses econômicos e políticos, indiferença social e renovação do poder patriarcal. Serão estudadas algumas passagens decisivas da obra machadiana, nas quais o escritor aborda a transição para o regime de trabalho livre no Brasil. O Memorial de Aires, último romance de Machado, receberá atenção especial, tendo em vista que sua ação se passa nos anos 1888-89. Veremos que a presença discreta, para o gosto abolicionista, da Abolição no livro faz parte da estratégia machadiana de adotar o ponto de vista da classe dominante imperial, de forma que ele possa ser melhor criticado – no caso do Memorial, de forma a denunciar o desinteresse total das elites brasileiras pelo destino dos libertos.
O seminário tem como objetivo contribuir para o processo de revisão do mito do absenteísmo machadiano, particularmente no que diz respeito ao interesse do escritor pela Abolição e a sua visão do processo de extinção do escravismo no Brasil. Com isso, pretende-se destacar a atualidade e o potencial crítico da reflexão machadiana sobre o 13 de Maio e a integração dos ex-escravos à sociedade de classes, tendo em vista a persistência da situação miserável e marginal dos negros no Brasil.