O brasileiríssimo Bernardo Carvalho
Jefferson Agostini Mello
EACH-USP / PPG em Lit. Brasileira - FFLCH - USP
Caso sigamos as indicações de Pascale Casanova, em seu República mundial das letras, Bernardo Carvalho pode ser considerado o mais cosmopolita e autônomo dos ficcionistas brasileiros da atualidade, seja pela configuração interna de seus romances, seja pelo conteúdo dos seus textos de crítica, de apologia do alto modernismo europeu e norte-americano. Trata-se, portanto, de um escritor que tanto busca negar o realismo literário quanto invalidar a idéia de uma literatura que se pretenda nacional na atualidade. Por outro lado, notamos em seus textos de crítica não apenas uma leitura por demais estetizante do modernismo, como se este se constituísse descolado de qualquer realidade social, como também, em sua ficção, e principalmente no seu romance de 2007, O sol se põe em São Paulo, assistimos a um constante ensimesmar-se da linguagem, um apagamento radical da mimese, como se a obra pudesse dizer apenas de si mesma, de outras obras, ou da própria literatura. Tal esforço de imanência, além de nos recordar as teorias desconstrucionistas, que Bernardo Carvalho também rejeita, o que por si só já vincularia sua obra à realidade presente do capitalismo e sua teoria cultural, leva-nos a uma segunda suspeita: até que ponto a reiteração dos termos modernistas, experimentais, antimiméticos em Carvalho não visa mais aos escritores locais do que aos seus pares internacionalmente reconhecidos? Nos termos de Casanova, dentro de um campo literário nacional, característico dos países mais pobres em termos de acumulação literária, há os mais e os menos cosmopolitas, competindo entre si por espaço e reconhecimento menos no sistema mundial e muito mais no espaço local. De modo que é paradoxalmente pela ausência estética que o fantasma do realismo brasileiro se faz presente na obra de Bernardo Carvalho, já que é ele que o autor deseja evitar e com quem compete, mas é ele que o persegue, fazendo parte de sua obra.