“Você sabe de onde eu venho?”:
o Brasil dos cantos de guerra (1942-1945)


Maria Elisa Pereira

PPG em História Social - FFLCH - USP

Enquanto a Europa era assolada durante a Segunda Guerra Mundial, alguns centros urbanos do Brasil floresciam. As principais ruas de São Paulo e Rio de Janeiro exibiam tanto o mundo “exterior”, competitivo e consumista, quanto séculos de complexas relações sociais. Nessas cidades desenvolviam-se também os meios de comunicação e os negócios culturais, em cujos produtos transpareciam essas experiências contraditórias. Os anos da guerra coincidem também com o ápice do que foi chamado de “época de ouro” da canção popular, urbana e comercial brasileira (1927-1945), na qual se afinariam a profissionalização dos músicos, as nuances da gravação elétrica e o amor pelas coisas do país.

Os dados levantados a partir de produtos do mercado fonográfico sugeriam que, mesmo em uma atmosfera local ainda fortemente ligada ao setor agrário, novos ares, industriais e internacionais, já se respiravam no país em guerra e sob ditadura. Como explicar a presença de manifestações culturais típicas de uma madura sociedade de massas onde ela engatinhava? Para elucidar essa questão foi preciso: conferir o padrão musical/militar brasileiro vigente na Itália, examinando a música feita pelos artistas/soldados da FEB e da FAB; identificar, dentre as gravações feitas no Brasil entre 1942 e 1945, cantos com as mesmas características dos hinos patrióticos e das marchas militares e cívicas, sopesando sua participação no esforço de guerra nacional e na manutenção do front interno; e analisar outras obras que, não se referindo à guerra, manifestassem a condição do Brasil no cenário internacional. Aqui se pôs mais um problema, o da mediação e da audição estrutural em peças da música popular com características industriais.